Pedacinhos de Amor
Príncipe Encantado
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Helena abriu a geladeira. Deu um longo suspiro. Viu apenas a garrafa de água gelada, dois ovos e um pouco de leite. Sentou-se na cadeira velha de fórmica da cozinha. Sentiu vontade de chorar, mas engoliu o choro. Precisava voltar ao trabalho. Haveria uma reunião do departamento de Saúde da Prefeitura da sua cidade. Morava numa cidadezinha aconchegante do interior de São Paulo chamada Retiro do Amor.
Afastou as preocupações do pensamento. Entrou no quarto. "Helena, Helena, sua casa está caindo."- pensou. A casa alugada era velha e desconfortável. No entanto, sonhava com dias melhores.
Foi para o quarto trocar de roupa. Mirou-se no espelho. Pegou a escova de cabelos que estava em cima da cômoda e escovou-os vigorosamente. Seus cabelos eram negros e lisos. Ficaram brilhantes. Helena gostou do resultado. A covinha no rosto acentuava seus olhos castanhos e grandes.
"Pois é, espelho meu! Sou jovem, 26 anos, bonita e não consegui segurar meu marido. Largou-me quando soube que eu estava grávida da Luciana."- pensou, com tristeza, enquanto mirava-se no espelho da penteadeira do quarto. Quando se lembrava do passado sofria muito. O que tinha feito de errado? Por que o marido a abandonara grávida de dois meses?
Foi o pior dia da sua vida. Henrique arrumou as coisas e avisou que ia embora. Helena chorou e quase implorou para que ele ficasse. Estava desconfiada da traição do marido, mas sempre achava que ele voltaria para ela. Nunca mais voltou. Agora, Luciana, sua filhinha , estava com três anos. Era uma menina esperta de olhos muito vivos. Helena criava a filha sozinha. Sua vida era muito difícil. Trabalhava o dia inteiro e chegava em casa à noitinha. Vivia somente para Luciana.
Helena tinha sonhos: ter uma casa bem arrumada e um futuro bom para sua filha. Desejava voltar aos estudos. Agora, não podia se dar ao luxo de pagar uma escola. Ganhava pouco trabalhando na Prefeitura Municipal. O dinheiro da pensão do ex-marido mal dava para sustentar a menina.
Trocou de roupa e foi para o trabalho. Era auxiliar de escritório do Departamento de Saúde. Estava atrasada para a reunião.
Naquela reunião, sua vida mudaria para sempre!
Miguel estava atrasado para a reunião do Departamento de Saúde do Retiro do Amor. Não conhecia aquele lugarejo. Morava em uma cidade próxima onde exercia a profissão de médico. Passou de carro pela pracinha procurando um local para estacionar o carro. Estava desanimado e quase infeliz. Seu relacionamento com Maria Dolores durou dez anos. Depois de uma briga, Miguel saiu de casa. Amava Maria Dolores e tentou uma reconciliação. A mulher era orgulhosa e nunca mais atendeu seus telefonemas.
O médico lembrou-se da visita que fizera a um terreiro de Umbanda. Um amigo tinha insistido muito para que ele fosse tomar um passe com o preto velho. Doutor Miguel acreditava em Deus, mas não tinha religião definida. O amigo o convenceu. Entrou timidamente naquela casa simples e acolhedora. Viu um homem sentado num banquinho. Alguém disse que ele podia se sentar no banco em frente e conversar com o tal do preto velho. Miguel aquiesceu. Viu um homem franzino vestido de branco. Fumava um cachimbo enquanto estalava os dedos. O doutor estava um pouco desconcertado. Não sabia o que dizer. O médium perguntou naquele tom peculiar dos pretos velhos:
_ O que você deseja, doutor? Está vestido de branco igual ao preto? Mi si fio está muito triste! Sofre por causa de um "rabo de saia" ( por causa de uma mulher).
_ Um relacionamento de dez anos! Não imaginava que fosse terminar assim...Gostaria de tomar um passe.- pediu.
_ Pai Joaquim, às suas ordens!- respondeu o preto velho com humildade.- Você amava muito aquela mulher! No entanto, o preto não vê mais reconciliação.- afirmou, convicto.
Miguel não gostou da resposta. O banquinho era desconfortável. Teve vontade de sair correndo dali. O médium o encarou com simplicidade e afirmou:
_ Sua vida vai mudar muito, filho. Vai conhecer uma mulher muito jovem de cabelos compridos . Está escrito! Fique calmo e confie em Deus!
O doutor saiu do terreiro tranqüilo e conformado. Nas questões religiosas era um pouco céptico. No entanto, dormiu muito bem naquela noite. Não pensou na Maria Dolores. Fazia tempo que estava tentando uma reconciliação. Queria uma oportunidade para recomeçar. Maria Dolores era orgulhosa. O desprezo dela o fazia sofrer demais. Será que ela já o havia esquecido? Por que não lhe dava uma chance para recomeçar? Pensou no preto velho e na sua premonição. Era um médico bem sucedido, mas já estava com cinqüenta e três anos. Onde estaria essa tal jovem?
Tirou as lembranças do pensamento e estacionou o carro em frente à Prefeitura Municipal do Retiro do Amor. A reunião já havia começado. Miguel entrou na Prefeitura e dirigiu-se à Secretaria da Saúde. Os médicos da região estavam lá. Miguel sentou-se, mas não conseguia prestar atenção nas palavras da Secretária de Saúde.
De repente, viu uma jovem entrando na sala com uma bandeja de café. O aroma era muito bom. Era uma mulher de tez clara, cabelos negros e fartos que caíam até à cintura. Miguel olhou para a jovem e seu coração acelerou repentinamente. Ela sorriu e ele viu uma linda covinha no seu rosto. Os olhos eram vivos e brilhantes. "Que moça bonita!"- pensou o doutor, enquanto pegava seu cafezinho. A moça o cumprimentou com um sorriso e se afastou com a bandeja. Imediatamente, o médico se lembrou do preto velho. Sentiu um arrepio na espinha."Você vai conhecer uma linda jovem de cabelos longos."- relembrou surpreso.
Durante toda a reunião, Miguel não conseguia tirar os olhos daquela jovem tão simples, mas tão bonita! Pele clara sem maquiagem e batom. Vestia uma calça jeans e blusa branca. Foi justamente essa simplicidade que atraiu o doutor. Helena possuía uma beleza selvagem. Não havia silicone, sombra nos olhos e nem tintura no cabelo. Helena tinha uma beleza natural. No entanto, suas formas eram muito bonitas!
Miguel conseguiu superar sua natural timidez e pediu o telefone da jovem desconhecida. Não conseguiu, mas ela lhe devolveu um sorriso que ele jamais esqueceria.
Depois da reunião, Helena foi buscar sua filha na creche. No entanto, a figura daquele médico a impressionou demais. Pensou:
"_ Ele não tirava os olhos de mim! Quem será ele? Meu Deus! Deve ter o dobro da minha idade! Ah, não! Não quero mais homens na minha vida."- decidiu resoluta.
Miguel não era homem de desistir ante um obstáculo. Conseguiu o telefone de Helena através de uma funcionária da Prefeitura e arriscou um contato. O primeiro encontro foi um fracasso! Helena foi muito rude com ele. Nos seus olhos, ele percebeu muita mágoa.
_ Helena, vamos sair para comer uma pizza? - convidou o médico. Estava na casa dela e ficou desconcertado com tanta simplicidade. Era um ambiente rústico, mas impecavelmente limpo. Na cozinha, apenas uma mesa com duas cadeiras. Na sala, um sofá de estampa surrada. Uma menina de olhos negros e vivos o cumprimentou com um sorriso. Retrato vivo da mãe!
Helena estava envergonhada da sua casa simples. Afinal, ele era um médico muito conceituado.
_ O senhor não devia ter vindo à minha casa!- censurou, enquanto pegava Luciana no colo.
Miguel estava perturbado. Uma avalanche de sentimentos no seu coração. Carinho, paixão e amizade. Já estava apaixonado! Como poderia seguir sua vida sabendo que Helena passava por tantas dificuldades? Helena contou sua história: a gravidez, a traição do marido e o abandono. Cada vez mais o doutor admirava o caráter da bela jovem.
_ Deixe-me ajudá-la!- pediu, súplice. Gosto de você! Amei-a desde o primeiro instante que a vi.
_ Quem o senhor está pensando que é?- ela vociferou.- Tem idade para ser meu pai! O que vão pensar de mim, se me virem com o senhor? Sou pobre, mas sou uma mulher digna! Meu ex-marido me largou com a Luciana na barriga, mas eu me virei sozinha. Não preciso de homem, sabia?- estava quase gritando e duas lágrimas grossas rolaram pelo seu rosto.- Não quero mais homens em minha vida.
"Está mulher não existe!- pensou, Miguel.- As mulheres caem aos meus pés por causa da minha profissão e do meu status. Ela não! "
Helena ficou irredutível, mas Miguel não desistiu. Ligava diariamente e a procurava nos finais de semana. Um dia, Helena se sentiu profundamente só e ligou para ele:
_ Miguel, pegue o carro e venha me ver! Estou me sentindo sozinha!- sua voz estava embargada.
O médico estava cansado dessa situação. Queria compromisso. Era um homem decidido! Não queria uma amante, mas uma namorada. Acreditava na possibilidade de compromisso sério com Helena. O comportamento rude e inacessível da jovem, não mudava. Miguel cansou-se:
_ Não posso ir à sua casa, Helena! Você tem me enxotado igual a um cachorro. Você sabe quais são minhas intenções. Pego estrada para encontrá-la e você não me deixa entrar na sua casa! Não sou um jovem irresponsável!
Helena desligou o telefone. Olhou para a mesa. Havia preparado um jantar íntimo. Estava apaixonada por Miguel, mas tinha medo! Medo de sofrer novamente! O homem era vinte anos mais velho do que ela ! Será que daria certo? Sua filha perguntou:
_ Tio Miguel virá, mãe? Gosto dele!- falou animada.
_ Não, filha. Ele não virá. Vamos dormir! Amanhã, tenho que acordar cedo!- Helena foi para o quarto. Deitou-se, mas não conseguiu conciliar o sono.
Alguns meses se passaram. Miguel nunca mais procurou Helena. No entanto, ainda estava apaixonado. Era véspera de Natal. Estava desanimado e triste. O celular chamou. Era o chamado de uma paciente! Uma senhora estava passando muito mal. Pensou resignado:
_ Tenho que ir! - disse para si mesmo enquanto procurava as chaves do carro.
No caminho, pensou em sua vida. Filhos criados e a vida profissional realizada. No entanto, não estava feliz.
O celular tocou novamente. Quem seria aquela hora? Quase meia noite!
Ouviu uma voz feminina e seu coração disparou:
_ Doutor Miguel, sou eu, Helena! Feliz Natal! Tenho pensando muito no senhor.- sua voz estava carinhosa.
Miguel ficou em silêncio por alguns instantes, atento à direção do carro. Respirou fundo e perguntou, tentando disfarçar a emoção:
_ Helena, é você? Quanto tempo! Não me chame de senhor!- pediu desconcertado.- Feliz Natal para você também!
_ O senhor.. quer dizer, você vai passar o Natal com sua família? Gostaria que viesse à minha casa. Assei um frango recheado. Luciana pergunta muito do senhor, isto é, de você.
_ Bem, eu havia planejado passar o Natal com meus netos. No entanto, posso modificar meus planos. Vou atender a um chamado e, logo depois, rumarei para o Retiro do Amor. Você me aguarda, Helena?
_ Claro!- ela disse animada.- Comprei um vinho! Não é caro, mas acho que é bom!
_ Dentro de uma hora estarei indo para o Retiro do Amor.- avisou Miguel com a voz trêmula.
Ela desligou o celular. Miguel relembrou as palavras do preto velho Joaquim:
"_ Sua vida vai mudar! Você vai conhecer uma jovem de cabelos longos!"
A vida de Miguel e Helena mudou para melhor. O relacionamento demorou um pouco para se concretizar. Enfrentaram diferenças de temperamento. Foi um difícil período de adaptação do casal. Um ano depois, nasceu Maria Clara, uma linda menina de olhos azuis. Agora, a harmonia voltou a morar na casa de Miguel e Helena. Serão felizes para sempre? Depende apenas deles!
Miguel não é um príncipe encantado. Com o tempo, a convivência diária fortalecerá ou não esse relacionamento. Descobrirão os defeitos e as manias de cada um. Mas o amor, dá encantamento à vida! Desejo mesmo que eles sejam felizes para todo o sempre!
Gostaram dessa linda história de amor? Queridas internautas, vocês acreditam em Príncipe Encantado? Não? Não existem príncipes encantados, mas o amor existe. Na vida, existem homens e mulheres em busca do amor. São seres humanos, mas desejam ser feliz a dois!
Histórias de amor com final feliz também acontecem.
O preto velho vaticinou o futuro do doutor Miguel naquela noite. Será que os guias de luz têm permissão para vaticinar o futuro? Depende. O objetivo dos guias de luz é sempre a melhoria do ser humano. Eles animam, estimulam, dão esperança. Tudo é sempre fiscalizado pela Espiritualidade Maior no sentido de ajuda e caridade. Um preto velho evoluído é precavido em seus conselhos. Suas orientações nunca fogem ao bom senso. Visam sempre a caridade!
A diferença de idade entre um casal interfere na relação? Sim. No entanto, dependendo da maturidade do homem ou da mulher, pode ser algo muito positivo. Um homem mais velho pode acrescentar muito à uma mulher bem mais jovem. Acréscimo de segurança, carinho e experiência pessoal. Em contrapartida, a mulher bem mais jovem acrescenta ao homem, alegria de viver e juventude. No entanto, tolerância e flexibilidade tem que estar presentes no relacionamento, porque senão o sonho de amor poderá se transformar em pesadelo!
Do mesmo modo, um homem bem mais jovem, pode também acrescentar coisas positivas à uma mulher mais velha. São diferenças que podem completar e ajudar no relacionamento.
Miguel e Helena tinham que se conhecer. Estava escrito!
Cabe a eles agora, lutar por um dia a dia cada vez mais feliz. O Amor precisa ser cuidado e alimentado todos os dias.