Pedacinhos de Amor

O Sonho acabou!

    Eu acreditava em sonhos de amor. Desde mocinha, achava que a pessoa certa entraria no meu caminho. No meu coração jovem e romântico só havia lugar para o amor e o casamento. Desejava me casar, ter um lar e filhos.

    Aos vinte anos, o príncipe encantado apareceu. Ele tinha dez anos a mais do que eu, inteligente e muito romântico. Nosso namoro era feito de cartas apaixonadas, porque ele morava em outro estado. Meu namorado morava em Recife- Pernambuco. Não houve muito tempo para namoro e noivado. Não houve tempo suficiente para conhecer o homem que seria meu marido. Esse foi talvez um dos meus grandes erros. No entanto, achamos que somente a magia do amor funciona. Amor é apenas amor! Será?

    Casei-me em 1978. O lugar era lindo, mas a minha vida mudou completamente. Era inexperiente e sonhadora. Apenas uma menina em termos de amadurecimento emocional e psíquico. Meu coração era grande! Não sabia cozinhar direito e, muito menos, administrar uma casa. Não foi fácil! Meu marido, logo no primeiro mês de casamento, mudou completamente.

    Seu temperamento antes protetor e romântico, transformou-se. Era um homem sistemático e autoritário. Controlava meu comportamento e dirigia minha vida. Costumava cheirar minha comida para verificar se era igual à comida da mãe dele. 

   Meu sonho de amor ruiu completamente! Desesperada, mas ainda carente de felicidade achei que tudo pudesse mudar. Não mudou! Meu marido tinha um hábito terrível: era um alcoólatra. Quando bebia tornava-se agressivo e descontrolado.

   Meu príncipe encantado transformou-se no meu agressor, mas eu ainda o amava muito. Meus apelos desesperados não melhoraram minha vida conjugal.Não sabia que atitude tomar. Naquela época, não havia internet e, muito menos, correio eletrônico. Desabafava com minha mãe. As cartas demoravam para chegar. Eu queria voltar para a casa dos meus pais, mas não voltei.

   Não tinha coragem de ir à polícia. A jovem apaixonada transformou-se numa mulher amedrontada e insegura. Depois de alguns anos, nasceram nossos filhos: um casal. Eram a minha alegria! Mudamos de  cidade. Pensei que nossa vida fosse melhorar. Estava enganada.

   Voltamos para o estado de São Paulo. Encontramos uma casa muito agradável numa cidade aconchegante e próspera. As crianças eram pequenas e adoravam brincar no quintal com o cachorro Sansão, nosso dálmata de estimação.

   Suspirei de alívio. Tudo iria melhorar! Eu me senti forte, para tentar novamente. Sonho de lar feliz e família realizada! Adorava cozinhar e preparar comidas  diferentes para a família.

   No entanto, a realidade dura e fria sondava meus sonhos de amor. Ela me sondava na forma de uma garrafa. Encontrava garrafas de pinga escondidas pela casa toda. Meu marido começou a beber demais. Um dia, fritava pastel e me sentia muito feliz. Ele chegou. Seu olhar estava frio e duro. Cambaleava. Começou a me provocar com palavras de baixo calão. Senti medo e um arrepio percorreu minha espinha. As crianças dormiam. Televisão ligada. O aroma de pastel frito estava na casa toda, mas também, o hálito forte do meu marido embriagado. 

   Vivi as piores horas da minha vida. Senti a morte de perto. Suas mãos agarraram meu pescoço e me sufocaram. Pensei nas crianças! Eu não queria morrer! Houve uma luta desesperada entre nós dois. Ele era muito mais alto e forte do que eu.  Gritei! Fiz um movimento brusco e saí correndo. Ninguém apareceu. Corri para a varanda da minha casa. Eu me escondi  atrás do carro do meu marido. Silêncio. Meu corpo estava cheio de hematomas. Eu me sentia em frangalhos. 

   O tempo se arrastou!  Entrei. Meu marido havia dormido. Dormi em outro quarto.

 No dia seguinte, acordei e fiz café. Não era uma mulher, mas um zumbi. Minutos depois, ele acordou e se vestiu para trabalhar. Sapecou um beijo em meu rosto e disse:

 _ Você me desculpa? Não sei o que aconteceu comigo naquela noite. Vou trabalhar e volto para jantar! 

 Nada falei. Fiquei parada olhando para ele. Senti um misto de desprezo e nojo. Ele saiu e fechou a porta atrás de si. Era sempre a mesma história: um pedido de desculpas e, dias depois, recomeçava o terror. 

 Naquele dia, meus sonhos de amor acabaram! Troquei de roupa, fiz um panelão de comida para o meu cachorro Sansão. Entrei em cada cômodo da casa e procurei por cada pedacinho de amor. Só encontrei os cacos da minha desilusão! Meu marido não tinha o direito de destruir minha alma, meu corpo e o meu coração. Conversei com as crianças e saí de casa. Voltei para casa dos meus pais.

  O tempo passou. Reatamos. Sempre uma chance a mais... Jamais fiz denúncia na polícia. Sentia vergonha e medo! Estava arrasada, mas fingia que tudo iria melhorar. 

  Um dia, procurei uma cartomante. Era uma velhinha de olhos apertados e míopes. O rosto enrugado como um mapa de geografia. Ar esperto e mãos ágeis com as cartas de baralho comum. Eu perguntei:

  _ Minha vida vai de mal a pior! Fizeram algum trabalho contra mim? Isso é macumba, azar ou olho grande? - estava desesperada.

   Ela olhou para mim com ar penalizado:

  _ Você sofre muito! Meus guias vão lhe ajudar! Não é trabalho ou magia... É a vida que você escolheu! Precisa agir, fazer alguma coisa! Do que você tem medo? 

 _ Fazer o que? O que posso fazer para salvar meu casamento?- perguntei encarando a mulher com ar desesperado.

 _ Procure os Alcoólicos Anônimos, procure uma delegacia.,mas faça alguma coisa! O homem que você ama tem um comportamento muito estranho. Se for alcoolismo é uma doença! No entanto, a escolha é dele! Mulher não muda o homem! Se o seu marido não quiser parar de beber, você nada conseguirá! Nas  cartas, minha querida,  vejo que seu sonho de amor acabou! Seu casamento acabou há muito tempo! O amor e o respeito acabaram há muito tempo e você sabe disso! Mas você ainda se ama?

  Saí da casa da cartomante arrasada. Por que ela não me falou que era só acender um pacote de velas e teria meu sonho de amor de volta? Por que ela não falou que era macumba? Era mais fácil culpar o destino do que meu comportamento omisso e amedrontado. 

 O tempo passou e a voz daquela mulher soou forte em meu coração. Um dia, meu marido me surrou de novo e a minha filha mais velha presenciou tudo. A voz da cartomante ecoava em meus ouvidos. E, pela primeira vez, pisei em uma Delegacia de Defesa da Mulher. Não foi bom! Eu me senti um ser desprezível. Senti vergonha e medo! No entanto, fui muito bem tratada e considerada. Mais tarde, conheci o Alanon , que ajudava as esposas de maridos alcoólatras. Meu marido freqüentou o A.Anônimos por dois anos. Tivemos dois anos de trégua.

  No entanto, o sonho de amor acabou. Ele voltou a me bater  e nosso caso de amor terminou num Fórum. A separação foi inevitável! No entanto, eu tentei! Eu tentei até o limite das minhas forças preservar meu sonho de amor! Não consegui!

  Meu sonho de amor acabou, mas agora sou uma mulher forte e destemida! A jovem romântica ainda está dentro de mim, mas agora sou uma mulher de verdade! Agora, sou uma mulher feliz! As marcas do passado ficaram, mas consigo olhar para ele sem sofrer mais!

  Você que já passou pelo que estou passando, não fuja da realidade. Denuncie! Vá à luta! Nós temos que dar algum crédito à justiça e às leis humanas! Desse modo, vamos fortalecer as leis e ajudar a reformulá-las, se necessário. Vamos vencer o medo, o preconceito e a impunidade!

   Não podemos tolerar a violência e a agressão à mulher! Depende de nós, uma atitude firme e confiante!

 Seja mulher! Não tenha medo de ser feliz e lutar por uma vida digna! Você merece!

                                                                                 Vera Lúcia

                                                                                Sorocaba- SP

                                                                                   28/11/04


  Nós, cartomantes, que lidamos com o destino dos seres humanos não podemos fugir da realidade. Temos que estar sempre bem informadas para orientar bem nosso consulente. Uma verdadeira clarividente tem os olhos pousados no momento atual e na realidade. Isso é que conta! Às vezes, nosso consulente precisa de médico, psiquiatra, advogado ou então, apenas um conselho. Temos que acordar nosso consulente e dizer com cuidado, mas com firmeza:

  _ Seu problema exige atendimento médico. Não é magia! Procure um médico!

  Ou então:

  _ Filha, seu homem é agressivo e violento. Você pode morrer nas mãos desse homem. Denuncie! Vá à Delegacia da Mulher e procure ajuda. Nesse caso, peça ajuda divina, mas mexa-se!

  Somos bruxos do Bem, mas não, seres alheios à realidade cotidiana! Dentro de um problema grave familiar, pode estar inserido um problema espiritual. Jamais descartaremos a ajuda espiritual. Acreditamos no Amor, na Magia, na vida pós morte, mas não podemos fugir da realidade com orientações tolas e sem fundamento! Devemos, através dos nossos dons, lutar por  um mundo melhor!

  Boa Sorte!

Magnólia Francisca.

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