Na bola de Cristal

A Diferença de Idade e o Amor

 

    Lisa ouvia o som da orquestra. A música era um bolero suave e gostoso de dançar. Ao seu lado, Pedro, seu companheiro há mais de seis anos. 

    Era uma noite especial! Lisa estava completando quarenta anos. Pedro olhava para ela com ternura. Puxou sua mão carinhosamente e colocou sobre ela algo brilhante. A moça ficou surpresa. Abriu a mão e viu um colar de strass com um par de brincos. Seu marido adorava  surpresas. A cada dia, Lisa se encantava mais com o companheiro. Seu temperamento alegre e confiante cada  vez mais aprofundava o relacionamento. Os laços de amor estavam cada vez mais sólidos. A moça quarentona nem  percebia a diferença de idade do marido. No baile, eles chamavam atenção. No entanto, Pedro se comportava como se tivesse 40 anos. Forte, saudável e muito alegre. 

   Lisa começava a ser feliz após dois longos anos de sofrimento: cuidar  da sogra esclerosada e muito doente. Era um exercício de tolerância e paciência. Sua sogra, Maria Luiza, estava com 90 anos. Parecia uma criança. Fugia de casa, não sabia se alimentar sozinha e não tinha mais controle sobre as necessidades fisiológicas. O casal passou por um período muito sofrido e cansativo. Lisa,às vezes, desejava a morte da sogra.  O casal não podia sair mais de casa. Ela vivia tensa e nervosa. O serviço acumulado. Haviam as duas crianças para cuidar, frutos do seu primeiro casamento. Pensava: "Por que Deus não a leva? Por que permite que uma senhora antes tão ágil e esperta fique assim tão dependente? Por que temos que passar por essa provação?"

   Pedro era espírita e se resignava com a doença da mãe. Acreditava ser karma de vidas passadas. Resgate para uma libertação no plano espiritual. Procurava ajudar a esposa na penosa tarefa de cuidar de uma pessoa idosa e completamente esclerosada. No entanto, faltava amor no coração da Lisa. Era dedicada, mas não conseguia gostar da sogra.

  A moça aprendeu muito com a doença da Maria Luiza. Exercício de renúncia e dedicação. A enfermeira Joana chegou naquela casa para facilitar o trabalho do casal. O estado de saúde da dona Maria Luiza era cada vez mais precário. Depois de um período no hospital, ela voltou para casa. Parecia mumificada, quase eterna. Um corpo macilento em cima da cama hospitalar emprestada. Não falava mais, só emitia gemidos incompreensíveis. 

  Lisa conformou-se e começou a sentir ternura pela sogra. Agora, cuidava dela com mais amor e paciência. A velha senhora faleceu tranqüilamente depois de quinze dias. Parecia que  estava esperando pelas manifestações de carinho da sua nora.

 Agora, Pedro e Lisa tinham a vida para viver. Começaram a passear e a viajar. Havia tempo livre para a dança, o bate-papo informal e o cuidado com as crianças.

  A bela moça deu um sorriso enquanto admirava o mimo presenteado pelo seu marido durante o baile.

 Sua lembrança captou um fato curioso. Quando estava  com 25 anos, foi a uma cartomante com uma amiga. Seu casamento ia de mal a pior. O marido de  30 anos era alcoólatra e estava desempregado. Lisa  desorientada e infeliz. Entrou na sala pequena da velha cartomante. A mulher aparentava setenta anos, olhos apertados e míopes:

   _ Filha, disse com voz sumida, enquanto mirava as cartas velhas de baralho comum.- Vejo um senhor idoso e atrás dele, uma pessoa mais idosa ainda. Essas pessoas farão parte da sua vida e, se você tiver paciência, seu futuro será auspicioso. 

  Lisa saiu da cartomante apreensiva. Quem seriam esses velhinhos? Será que iria trabalhar em algum asilo? O tempo passou e seu casamento não deu certo. Lisa conheceu um rapaz um pouco mais novo do que ela. Não deu certo. Resignada, limitou-se a trabalhar fora para sustentar os dois filhos pequenos. 

  No escritório, conheceu Pedro , trinta e oito anos mais velho do que ela. Era um senhor baixo, de sorriso fácil e muito gentil. No início, ele somente a cumprimentava. Depois, deixava sempre um bombom sonho de valsa em sua mesa de escritório. Lisa sorria com a gentileza. Começou a sentir algo especial por aquele homem. Algumas semanas depois, ele a convidou para um baile. Ela assentiu. Dançaram e conversaram muito. Ela ficou encantada com a jovialidade do senhor. 

  Meses depois, estavam morando juntos. 

  Depois de um período difícil de adaptação, a convivência era harmoniosa. Pedro não era um homem rico, mas Lisa tinha conforto e carinho. Ele gostava muito das suas crianças. Não era paixão o que sentia pelo marido, mas uma ternura muito gostosa. 

  Acreditava-se feliz depois dos dois casamentos fracassados.

  Naquele momento, no baile, Lisa lembrou-se da cartomante e das duas pessoas idosas na sua vida. 

  Nem sempre entendemos a previsão de uma boa cartomante. Muitas vezes, a premonição acontece muito tempo depois.... Tudo tem sua razão de ser!

  Agora, o casal seguia feliz um caminho cheio de ternura e muito amor!


   Vocês devem estar pensando assim: "ah, esse homem é rico e ela é pobre!" Estão enganados. O casal vive com certo conforto, mas Pedro nem tem casa própria. Possuem um fusca branco onde fazem seus passeios. A felicidade pode morar também na rotina do dia a dia, sem riquezas ou brilhos. A felicidade, às vezes, mora nas coisas simples da vida.

  A diferença de idade não é a causa dos problemas do relacionamento do casal. A maturidade emocional e espiritual do ser humano nem sempre depende da idade. Alguns homens são jovens e se comportam como homens maduros e experientes. Outros têm idade avançada e são como crianças. 

   Vendo sob um prisma reencarnacionista, não existe o velho e nem o novo. Alguns apenas renascem antes do que os outros. 

  Quando há amor, a diferença de idade é contornada. O que tem mais experiência completa o outro que é mais jovem. O homem mais maduro se enche de vida quando ama uma mulher mais jovem. Falo de amor! Se for afeto passageiro ou baseado apenas em interesses materiais, não se sustentará. Há muitos relacionamentos sustentados por conveniências sociais ou materiais. Podem até durar, mas vivem de fachada e de aparências. 

  Um homem mais novo pode desabrochar uma mulher mais madura. Os dois se completam numa relação diferente, mas que pode ser cheia de amor e paixão!

 O Amor não tem regras específicas. Cada caso é um caso! Não se pode generalizar.

 Lisa voltou à casa da velha cartomante, mas nunca mais a encontrou. Restou a lembrança de uma premonição acertada e quase mágica!

  Nós que trabalhamos com o futuro, temos que ter cuidado. Falar pouco pode ser sinal de sabedoria! E saber como falar, para não confundir ou deixar o consulente ansioso.

 O Amor não tem idade!

 Magnólia Francisca

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