Na Bola de Cristal
Devemos acreditar em todas as previsões de uma cartomante?

Minha filha Ana Lúcia, 18 anos, brigou com o namorado. Há alguns meses, estava observando algumas mudanças de comportamento. Recusava-se a sair com o rapaz. Estava sempre triste e chorando pelos cantos.
A minha intuição dizia que algo estava errado com ela. Estaria doente? Mas, por que? Era uma moça saudável, bonita e estava no segundo ano de Direito. Não éramos ricos, mas Ana Lúcia tinha tudo o que uma moça podia desejar.
No princípio, o namorado, um belo rapaz de 25 anos, tinha muita paciência. Conversava com Ana Lúcia e a estimulava a sair de casa. Ana Lúcia estava distante, ansiosa e parecia assustada.
Marquei uma consulta com nosso médico particular. Ana Lúcia foi a contra gosto. Depois de alguns exames, o doutor Luiz afirmou: "_ Sua filha está com depressão." Não acreditei! Uma moça inteligente e estudiosa com depressão? Bonita, esperta e alegre. O médico me explicou que, a depressão pode vir assim, sorrateira, repentina. Ou causada por alguns problemas como: luto na família, problemas na escola, baixa auto-estima, etc. Não encontrava um motivo para a depressão da minha filha.
Ana Lúcia começou a fazer psicoterapia. Tomava um ansiolítico para dormir e as noites insones amenizaram. Ainda não estava animada para sair com o namorado, mas pelo menos, parou de chorar pelos cantos.
Quando eu pensava que o pior tinha passado, Ana Lúcia sofreu um baque. O namorado terminou o compromisso. Alegou que precisava reforçar seus estudos, enfim, rompeu um namoro que já durava dois anos.
Minha filha teve uma recaída. Precisou de psicoterapia duas vezes por semana. Não se conformava. Queria o rapaz de volta. Ligou para ele, insistiu, telefonou várias vezes. Ele não atendia aos seus chamados. Tentei conversar com ela, mas estava arredia e nervosa.
Fiquei preocupada. Outra recaída, poderia prejudicar seriamente seus estudos.
Uma tarde, Ana Lúcia chegou com os olhos brilhando. Estava muito alegre e eu estranhei. Animada me contou:
_ Mamãe, fui ... num lugar... sabe.. pra ler as cartas.
_ O que? - eu não gostava muito dessas coisas.
_ Uma amiga minha me levou no seu Benedito. Ele colocou as cartas para mim. Ela me disse que ele sempre acertou com ela! O seu Benedito afirmou com todas as letras que o Eduardo vai voltar para mim em 15 dias! Estou muito feliz!- franzi o cenho com ar de dúvida.
Não estava gostando daquela história. Quem sabe sobre nosso futuro é Deus. Ana Lúcia estava em tratamento psicológico. Como foi parar num lugar desses? E se o rapaz não voltasse?
Tiro e queda! Uma semana se passou. Dez dias. Quinze dias. O rapaz não voltou. Ana Lúcia passou da euforia para a raiva. Ficou quinze dias praticamente colada ao telefone, esperando um telefonema do Eduardo. Nada! Quando o telefone tocava, corria para atender. Esperava torpedos no celular. Torpedos que nunca vieram. Uma reconciliação que jamais aconteceu.
Enfurecida, minha filha quis voltar ao cartomante para tirar satisfações. Sentia-se desprezada pelo namorado e queria descontar em alguém. Com muita conversa consegui que minha filha mudasse de idéia.
Não acredito em cartomantes. Acho que tenho preconceito e muito medo!
Ana Lúcia já se recuperou da depressão, mas até agora o namorado não voltou.
O homem era charlatão, um enganador ou mentiu? As cartomantes também podem errar?
Maria Teresa- SP.
Devemos acreditar no clarividente. Tem que haver uma relação de confiança e respeito entre consulente e cartomante. Para se estabelecer uma relação de confiança você tem que estar amparada pela informação sobre o profissional. Como ele trabalha com seus oráculos, o estado das suas instalações, a seriedade e, principalmente se atua com o sincero propósito de ajudar o consulente.
O consulente tem que acionar seu filtro próprio e o bom senso. Uma amiga foi a uma cartomante e perguntou sobre seu namorado. A cartomante vacilou e disse em tom inseguro:
"Vá levando!"
Minha amiga voltou para casa cheia de dúvidas e totalmente desacreditada.
Outra amiga foi a um vidente e perguntou sobre seu casamento. O homem afirmou categórico: "Seu marido tem amante!" Já pensou na responsabilidade desse clarividente ao falar algo tão sério? As palavras tem força e poder! Já pensou se a consulente tivesse um temperamento arrebatado e impulsivo? Sentindo-se traída poderia fazer até uma besteira ou provocar uma tragédia.
Quando atendemos nossos consulentes temos que nos questionar sempre:
Por que vou passar para o cliente essa premonição?
Para que?
Vou ajudar o consulente?
Essa premonição poderá ajudá-lo no sentido de transformar para melhor sua vida atual, emocional, afetiva e psicológica?
Ele estará preparado para ouvir essa informação?
Será que estou correta?
Geralmente, as pessoas que lidam com oráculos são clarividentes. Tem o dom da intuição. Essas pessoas parecem descortinar os véus que escondem o futuro, o presente e o passado. São como um guia de turismo. Andam na frente dos turistas para lhes apontar o caminho. Os turistas esperam enquanto ele sobe o morro e grita: "Aqui há uma clareira! Podem subir!"
A clareira está lá e sempre existiu. Só que o guia de turismo apenas viu antes e orientou os turistas.
Clarividentes não são adivinhos. Ninguém adivinha o futuro. Podemos ter uma idéia do futuro da pessoa através das cartas, mas o consulente pode mudar tudo através do seu livre arbítrio.
Há também outro detalhe. Nem tudo podemos prever. Certas coisas ficam veladas. Cada um de nós, tem um protetor. Esse protetor sempre está por perto quando a pessoa precisa. E, nem sempre, esse anjo da guarda permite que certas coisas sejam ditas. É importante que você se prepare antes de ir a um clarividente. Faça uma oração e tenha pensamentos positivos.
A cartomante também tem que estar preparada. Todos nós estamos sujeitos a erros. Temos que ter cuidado com o que falamos. Tudo o que um clarividente fala através dos oráculos, desperta emoções, sentimentos e gera atitudes nos consulentes.
Devemos ter cautela e evitar dar prazos. Ouvir o consulente em suas queixas, amenizar sua ansiedade pode ser bem mais positivo do que acertar previsões ou vaticínios.
Cada consulente tem seu próprio temperamento, lida melhor ou não com as emoções. Muitas pessoas que vão a uma cartomante, podem estar precisando de um tratamento médico ou psicológico. Algumas podem ter graves problemas psicológicos. São vidas humanas e temos que ter respeito e cuidado com o que falamos.
O dom da clarividência pode ajudar muitas pessoas. É uma maneira sutil e maravilhosa de abrir caminhos, consolar e amenizar o sofrimento.
Seu Benedito poderia ter sido mais assertivo se amenizasse a ansiedade da jovem. Ele poderia ter percebido nos gestos de Ana Lúcia, no olhar, suas emoções frágeis e delicadas. Viu nas cartas que o namorado iria voltar. Deu um prazo de 15 dias. Mas e se voltar em um ano, dois ou três anos? E se não voltar mais? Erros nas previsões não quer dizer necessariamente que o clarividente é charlatão ou mau caráter.
Ana Lúcia precisava ser preparada para lidar com perdas, frustrações. Precisava ser estimulada em sua auto-estima. A consulta teria melhor proveito se focasse o estado emocional da consulente. Quando vamos a uma cartomante, nem sempre estamos preparados para ouvir determinadas coisas. Emoções desencontradas, medo do futuro, medo de previsões de luto, morte ou doença podem chocar um consulente mais sensível.
Como temos certeza de que vamos errar ou acertar? Não sabemos. A intuição é algo espontâneo, mas não é um cálculo matemático. Pode vir ou não. Pode ser mascarada por nossos próprios problemas.
No entanto, uma boa consulta costuma ajudar muitas pessoas. O que é uma boa consulta? Dar datas acertadas, prazos, períodos? Alguns clarividentes são muito talentosos e costumam acertar prontamente. Naquele período acontece a premonição.
Conheci uma famosa clarividente que residia no estado de Minas Gerais. Uma amiga minha foi com a mãe em seu consultório. Ela estava com apenas doze anos. A médium vaticinou: "Sua filha se casará com 21 anos." A premonição foi correta. Minha amiga se casou aos vinte e um anos.
O clarividente tem que ter segurança naquilo que faz. Ter fé em Deus, nos seus dons e nos guias espirituais. Atuando com amor, estará menos sujeito ao ataques de maus espíritos que tudo fazem para prejudicar seu trabalho. Atuando com equilíbrio, sem vaidade, atrairá boas companhias espirituais. Sua consulta será equilibrada e positiva. Estará menos sujeito a erros e disparates.
Lembre-se! A vida é sua e só você tem o poder de escolha, de decisão. Acredite em sua cartomante, mas tenha bom senso e equilíbrio.
Boa sorte!
Frases sublinhadas: Reflexões do livro: "Loucura sob novo prisma- Bezerra de Menezes"