Pedacinhos de Amor
Alma gêmea

Cristiane, uma linda adolescente, era loura de olhos azuis. Morava numa cidade do interior de São Paulo com a tia solteira. Vivia mergulhada nos estudos e com saudades da mãe que residia na capital.
A bela adolescente vivia um amor proibido. Todas as tardes, ficava no portão à espera do seu grande amor. Era Mauro, o leiteiro do bairro: bem moreno e de família muito simples. Quando via o leiteiro moreno jambo seu coração disparava. Sua tia a castigava severamente quando descobria os encontros. Áurea a colocava ajoelhada em caroços de milho e dizia com veemência:
"Não quero que você se encontre mais com aquele "charuto". Vou contar para sua mãe!- ameaçava com os olhos arregalados e o terço na mão. - O que este homem poderá lhe oferecer na vida? Um pobretão! Você precisa estudar!"
A bela jovem passava as noites em claro, molhando o diário com suas lágrimas. Um dia, a mãe veio da capital para visitá-la:
_ Filha, você vai para capital passar uns tempos comigo.- decidiu a mãe resoluta. Os olhos azuis da jovem ficaram marejados de lágrimas. Sua mãe estaria por perto, mas estaria muito longe do seu moreno leiteiro. Não houve tempo para despedidas.
Mauro sentia o coração sufocado. Cristiane não o esperava mais no portão como de costume. Ficou desesperado! Correu o bairro para saber notícias da loirinha. Corria um boato que Cristiane estava na capital São Paulo com a mãe. Mauro comprou uma passagem de ônibus e viajou para a capital. Como procurar Cristiane naquela cidade grande?Não tinha uma pista sequer da sua amada.Onde ela estaria? Mauro ficou dois anos sem ter notícias da bela Cristiane.
O rapaz tentou esquecer a bela jovem de olhos azuis e começou o namoro com Tereza, uma jovem morena e bonita. No entanto, seu coração ainda ansiava pelos olhos azuis da Cristiane.
Pouco tempo depois, Cristiane voltou para a casa da tia solteirona no interior de São Paulo. Estava ansiosa para reencontrar seu grande amor. Através de uma amiga, Cristiane conseguiu marcar um encontro com Mauro. Eles se reencontraram na Rodovia Dutra. A grande via estava começando a ser construída. Enquanto aguardava, o coração dava saltos, as mãos suavam. Os olhos azuis da Cristiane brilhavam de saudade reprimida. Mauro apareceu de camisa branca e calça escura. Os olhares se reencontraram. Cristiane se adiantou:
_ Mauro, voltei! Minha mãe me levou para São Paulo. Não pude lhe avisar. Você está bem? Está sozinho?Ah, Mauro, morri de saudades de você!- Mauro chegou bem perto dela e segurou suas mãos bem feitas.
_ Eu fui à capital, Cris. Estava desesperado! Achei que você não queria mais nada comigo. Estou namorando a Teresa, mas...- Cristiane sentiu o sangue ferver nas veias de ciúme. Namorando outra? Passou mais de dois anos de sua vida chorando pelos cantos. E agora, Mauro estava nos braços de outra.
_ Pois então, fique com sua Tereza.- os olhos da Cris faiscavam de raiva. Cristiane deu as costas para seu grande amor e foi embora. Mauro tentou chamá-la, mas ela foi embora. Ele viu com tristeza, a silhueta bem feita de Cris desaparecer. Tentou reencontrá-la, enviou bilhetes e cartas, mas Cristiane não mudou de idéia.
Quarenta anos se passaram. Cristiane se casou, teve filhos, sofreu, amou. Casou-se de novo, sofreu, amou, chorou e sorriu. Mauro casou-se e teve 7 filhos. Sofreu, viveu e amou, mas nunca esqueceu a loirinha bonita de olhos azuis como o céu.
Ano de 1990. Cristiane mirou-se no espelho de seu apartamento solitário. Estava com cinqüenta anos. Sentiu uma pontada de angústia e pensou:
_ Engordei um pouco, as rugas começaram a aparecer. Ah, o tempo passa!- murmurou com nostalgia . Sua amiga a convidou para o baile de Aposentados. Cristiane sentia-se triste e desanimada, mas não recusou o convite. Arrumou-se como de costume; maquiagem leve e batom. Seu rosto continuava bonito, olhos muito azuis e brilhantes.
Chegou ao salão. Escolheram uma mesa no canto e Cristiane se reanimou com o som da orquestra. A música era um colírio para a alma da Cris.No meio da madrugada, viu um homem se aproximando da mesa. Era muito moreno, estatura mediana, mas reconheceu a cor da pele e o sorriso maroto. Ele disse com voz trêmula:
_ É a Cristiane? É você, Cristiane? - ele tornou a perguntar emocionado.
_ Mauro?! É você, Mauro? - os olhos da Cristiane ficaram rasos d`água. Parecia não acreditar! Seria o mesmo jovem moreno jambo do passado?
_ Sim, como dizia sua tia, sou o "charuto"!- afirmou com certa mágoa. Vamos dançar?
Cristiane deixou-se levar pela música e pelos braços do antigo namorado da juventude. Ele disse com ar terno:
_ Eu sempre esperei por este momento, Cristiane. - segredou em seu ouvido.
_ E a Teresa, Mauro? - Cristiane sorriu desconcertada.
_ Estou sozinho, Cristiane. E você?- perguntou com receio da resposta. Tinha receio de que aquele momento passasse ou se quebrasse como vaso de cristal. Parecia um sonho e ele tinha medo de acordar!
_ Estou sozinha, Mauro.- respondeu, baixando os olhos.
Ele a apertou contra si como se tivesse receio que ela escapasse e sussurrou em seu ouvido:
_ Cristiane, sempre a amei. Você não está mais sozinha! Não me abandone mais!- pediu, enquanto a puxava para si. Naquele momento, tocava a música "A Deusa do Asfalto". Mauro, com sua voz de barítono, sussurrou a letra da música para sua amada ouvir. Depois do baile, caminharam devagar pela calçada abraçadinhos como dois namorados.
Recomeçava uma linda história de Amor!
O amor não tem fronteiras. As almas gêmeas podem se afastar por contingências da vida, do destino, mas sempre se reencontram. Esta linda e real história de amor durou quatorze anos e só terminou porque Cristiane partiu para o mundo espiritual. Certamente, em outra dimensão, ela espera o retorno do seu grande amor.Há dois anos, eu revi senhor Mauro no baile do Aposentados sozinho e com ar triste. Ele me disse: "- Sem ela, a Cris, o baile não é mais a mesma coisa!" Pouco tempo depois, ele adoeceu e não freqüenta mais os bailes.
Almas gêmeas existem? Acho que sim. Há muitos mistérios velados em nosso destino. Grandes amores que superam traumas, distancias, não podem ser explicados somente através desta encarnação. Estas almas já se encontraram em outras vidas.
O amor existe e é bem real! O Amor não tem idade! Há sempre tempo para o Amor!